Nada ortodoxa: uma história de renúncia à religião - Deborah Feldman

>>  quarta-feira, 21 de outubro de 2020

FELDMAN, Deborah. Nada ortodoxa: uma história de renúncia à religião. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2020. 304p. Título original: Unorthodox: the scandalous rejection of my hasidic roots

 Quem lê sabe que a leitura nos proporciona muitas "viagens". Ela também nos proporciona aprendizado sobre várias coisas, como outras culturas, raças, povos, religiões. Nada ortodoxa quase passou despercebido por mim, mas bastou dar uma lidinha na sinopse para escolhê-lo imediatamente. Afinal, não é todo dia que eu tenho a chance de ler sobre outra religião, ainda mais sobre uma que conheço superficialmente. Se você, até hoje, não tinha ouvido falar muito sobre os judeus além do que os livros sobre a guerra apresentam, venha que vou dividir com você um pouquinho do que aprendi com essa leitura.

Deborah é uma judia hassídica. Judeus hassídicos compõem uma corrente ultraortodoxa do judaísmo, ou seja, com regras duríssimas. E foi em meio a essas regras que Deborah sempre viveu. Ela nunca teve muito contato com os pais, tendo sido criada por sua "Bobe" e seu "Zeide"("avó" e "avô" em iídiche, o idioma falado pelos judeus hassídicos),  ambos sempre muito leais às tradições religiosas.

Para conseguir lidar com toda essa rigidez em seu mundo, Deborah, que sempre foi uma criança muito curiosa, sempre lia, escondida, livros como Orgulho e preconceito, Jane Eyre, Mulherzinhas, e via as heroínas dessas histórias como verdadeiras inspirações.

Ela sempre se questionava sobre qual era o sentido de tanta dedicação a um Deus. Será que esse Deus estaria mesmo tão satisfeito com tanta abnegação? E que Deus é esse que ficaria satisfeito com "nossos esforços insignificantes, como meias-calças mais grossas e saias mais longas? Será que isso é realmente o suficiente para contentar Deus?" (p.110).  

Quando chega à "idade de casar", Deborah começa a imaginar que talvez o seu casamento seja uma passagem só de ida para a liberdade; que ela talvez se case com um marido um pouco mais liberal que a deixe ler seus livros em paz, bem como fazer tudo o que sempre teve vontade.

Contudo, após o casamento ela se vê em um relacionamento com um rapaz judeu que ela mal conhece e que mal tem experiência de vida para auxiliá-la. Um rapaz tão preso às regras da religião (que no casamento são ainda mais limitadoras e frustrantes) quanto qualquer outro com quem Deborah já conviveu. Seu esposo coloca a religião acima de tudo, até mesmo de seu casamento e do bem-estar da própria família.

Um dia, saturada de tudo aquilo, Deborah decide arriscar tudo para, enfim, conquistar aquilo que deseja: a liberdade, ainda que para isso tenha que abandonar tudo o que sempre conheceu como sua vida.


                                              "Os acontecimentos mais incríveis são possíveis quando ainda estamos lidando com o desconhecido. É só quando tudo já foi decidido que a empolgação desaparece".         

p. 136.



                "Éramos seres espirituais, corpos portando almas. A ideia de que agora teria de lidar constantemente, pelo resto da minha vida, com uma área do meu corpo sobre a qual nunca pensara a respeito -muito menos quisera pensar - era um contraste gritante com o estilo de vida casto que até então eu levara." - p. 173.



Este é um livro de memórias, não-ficcional, autobiográfico. A autora narra de uma forma tão fluida, que até me esquecia por vários momentos que não era ficção. O que mais me impressionou foi o choque de culturas que tive ao conhecer a história de Deborah, e isso me fez, em vários momentos, me colocar no lugar dela e imaginar como alguém poderia viver sob tanta limitação, simplesmente por ser mulher.

Eu que já havia me encantado com a história de vida e de coragem dela, à medida em que ia escrevendo esta resenha, fui me encantando ainda mais com todo o aprendizado cultural que tive ao longo do livro.

Sempre tive mais proximidade com regras de religiões como a católica, a evangélica, a espírita e um pouco da adventista do sétimo dia. Quando iniciei a leitura, não estava preparada para o que encontrei, e passei a leitura inteira com um misto de embasbacamento e fúria em solidariedade a Deborah.

Não vou entrar em muitos detalhes para não dar spoiler, mas vale citar alguns dos costumes do povo judeu hassídico para, quem sabe, aumentar a sua curiosidade de conhecer também essa história: mulheres não podem ler, sobretudo livros em língua inglesa, isso porque os livros provocariam a perda da inocência da pessoa, o que faz com que ela se torne impura (e se você acha que ela pode ler livros hebraicos, está enganado, pois estes são apenas para homens); o lugar da mulher é na cozinha; as meias-calças utilizadas pelas moças precisam ter uma costura grossa na parte de trás da perna, a fim de demonstrar que não se trata de pele exposta, e sim de pano somente. Após o casamento, por sua vez, as regras são ainda mais rígidas, quiçá machistas: as mulheres precisam raspar todo o cabelo e passar a usar peruca; o cabelo não pode crescer e aparecer por baixo da peruca, pois isso tornaria a mulher sedutora, desfrutável; o sexo deverá ser praticado sempre às sextas-feiras e, nos dias de menstruação, o marido não pode de forma alguma encostar na esposa, pois esta estaria impura; o que ela precisa, mensalmente, fazer para provar que é digna de ser tocada pelo marido após o período menstrual, vocês terão que ler para descobrir.

A bem da verdade é que, repito, senti muita empatia pela Deborah e passei a leitura ansiosa para saber em que momento ela conseguiria se livrar de tudo aquilo que ela narra como algo sufocante. Fica claro que todas as figuras masculinas na vida dela foram decepcionantes (o pai sem discernimento mental; o avô, um devoto fervoroso; o esposo, um inútil e bobão), ao mesmo tempo que vemos a força e a garra de uma mulher para superar as dificuldades, derrubar opressores e fazer aquilo que quiser da vida.

E é essa a mensagem que a autora passa para o leitor: lute pelo que quer, pelo que acredita; não deixe ninguém dizer que você não pode, que não é seu lugar; lute contra esse tipo de "conselho", esse tipo de pessoa.

Uma coisa que adorei ao longo da leitura foram as referências literárias (Jane Eyre, Alice no país das maravilhas, As crônicas de Nárnia, Orgulho e preconceito), cinematográficas (Sobre meninos e lobos) e musicais (Backstreet boys, Britney Spears, Shanya Twain). Adolescentes dos anos 2000 vão se identificar demais, rs. Todas as referências serviram para provar que ela era uma garota de bom gosto (musical nem tanto, mas não se pode exigir demais dos adolescentes, certo? rs).

Se você percebeu, no início da resenha usei termos em língua iídiche. O livro inteiro é permeado por elas e, por isso, no final dele, há um glossário de palavras em iídiche que eu adorei ficar lendo para saber mais sobre a cultura. Adoro!

Desta vez, vou me abster de dizer se o final é bom ou ruim, se tem um desfecho ou se fica em aberto. Afinal, estamos falando das memórias reais de uma pessoa que queria contar sua experiência religiosa, então não há exatamente um final, pois se trata de uma biografia parcial.

Se você ficou interessado(a), eu indico, além do livro, a minissérie homônima lançada pela Netflix em março deste ano. São apenas quatro episódios de 52 minutos cada, aproximadamente. Eu assisti em uma sentada e passou voando! Houve alterações significativas, sobretudo dos nomes dos personagens. Deram também um pouco mais de dramaticidade em alguns pontos da história, e acho que isso foi essencial para a transposição do livro para a tela. Vale muito a pena assistir! Ah, e assista em idioma original e legendado em português, pois as falas estão em inglês e íidiche, e achei sensacional poder ouvir todos os traquejos e sonoridades dessa língua que eu não conhecia.

Indico o livro para todos os curiosos por outras culturas e para leitores em geral. Com certeza será um grande aprendizado!



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