Querida Tia - Valérie Perrin
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>> terça-feira, 30 de junho de 2026
PERRIN, Valérie. Querida Tia. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2025. 496p. Título original: Tata.
"- Estamos todos de passagem, mesmo quem não está de viagem." p. 138
A francesa Valérie Perrin escreve com uma sensibilidade que emociona. Transforma uma realidade corriqueira em pura magia. Seus livros prendem, emocionam e deixam os leitores encantados pelos seus personagens; imperfeitos, sensíveis e muito reais. Eu adorei a leitura de Água fresca para as flores, o mais conhecido da autora. Hoje conto para vocês o que achei de Querida tia.
Agnés Dugain, 38 anos, está passando por um longo período complicado. Continua arrasada desde que o marido, Pierre Dugain, a deixou para ficar com a atriz que participou de seu último filme. Agnés é uma diretora de cinema premiada, dirigiu alguns filmes que foram sucesso de público e receberam vários prêmios e indicações. Ela sente que sua carreira só existia com Pierre, a estrela de todos os seus filmes. E depois da separação, não escreveu mais nenhum roteiro. Ela e a filha de 15 anos, Ana, deixaram Los Angeles e voltaram para Paris após o divorcio.
A vida de Agnés tem uma reviravolta depois que recebe uma ligação de um policial de Gueugnon, região Francesa de Borgonha, informando que sua única Tia, Colette Septembre, faleceu. O problema é que sua tinha já tinha morrido, há três anos atrás...
Agnés é filha de Hannah Ruben, uma violinista, e Jean Septembre, pianista. Ambos os pais já falecidos. Colette era sua única tia e ela cresceu e passou todas as suas férias em Gueugnon, tem vários amigos antigos na cidade e todos conheciam sua tia. Colette era uma sapateira, apaixonada por futebol, que viveu uma vida simples e solitária. E agora, aparentemente, ela também fingiu sua própria morte.
Agora Agnés retorna a cidade para identificar o corpo da Tia, e entender como tudo isso pode ter acontecido. À medida que mergulha nas lembranças da infância e nas antigas histórias familiares, Agnès descobre uma história marcada por dores silenciosas, amores interrompidos, perdas profundas e escolhas difíceis. O romance alterna passado e presente para revelar, pouco a pouco, como os laços familiares podem guardar tanto afeto quanto cicatrizes. Ela descobre uma mala cheia de fitas cassetes gravadas por Colette para ela, e começa a entender a trajetória de vida da Tia, enquanto luta para recomeçar e reconstruir a própria vida.
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Eu amei tanto esse livro! Valérie Perrin conquistou definitivamente meu coração, e agora preciso ler todos os seus livros. Suas histórias cotidianas estão longe de serem clichê, ela constrói com maestria as várias camadas de seus personagens, pessoas aparentemente simples e sem mistérios. Suas histórias mostram a vida como ela é, mas em tantos detalhes encantadores. Eu me emocionei em vários momentos, o livro tem passagens tristes, mas ao mesmo tempo aquece o coração.
Eu adorei Agnés, uma mulher determinada, mas que era completamente apaixonada pelo marido e teve seu coração partido de repente. A autora não conta em detalhes o que culminou no fim do relacionamento, além da traição claro, mas não sabemos se antes disso ela tinha realmente aquele relacionamento perfeito que ela guardava em sua mente. Mas Agnés é uma mãe dedicada e esconde a maioria das suas frustrações para que a filha não sofra com ela, e mantenha um bom relacionamento com o pai. Eu torci muito para que ela superasse Pierre e recomeçasse, encontrasse sua felicidade. E, obviamente, tive ranço do ex-marido o livro todo.
Agora, não tem como negar. Colette rouba todas as cenas! Que mulher incrível! Colette que nunca abraçava ninguém, que raramente sorria, que vivia uma vida quase reclusa e bem solitária, que nunca se casou ou teve filhos. Ao mesmo tempo; Colette que sacrificou tudo para que o irmão conseguisse se tornar um pianista profissional. Que viveu toda a sua vida em prol da família e dos amigos. Que sacrificou tudo para que Agnés tivesse uma vida tranquila e feliz. Que mulher sensacional! Como sofri e me emocionei por ela. Da sua infância sofrida e sem amor, com uma mãe que parecia odiá-la e um pai violento, que ignorava a filha.
Temos tantos coadjuvantes incríveis. Ana, que herdou o talento para o piano do avô e também quer ser uma pianista. Blaise, a única amiga de verdade de Colette, que sofreu a vida inteira nas mãos de um pai tirano e violento. Jean, um eterno sonhador, que vivia para o seu piano e morreu tão cedo. Sua esposa, Hannah, filha de judeus que foram mortos na Segunda Guerra, que viveu um grande amor pelo marido e fez tudo por ele, e que amou tanto a família até o fim. Os amigos de Gueugnon, em especial Lyèce, um dos amigos mais antigos de Agnés, que também tem uma grande tragédia pessoal. E Mokhtar, outro personagem incrível, e o único que realmente amou Colette como uma filha.
A narrativa tem um ritmo mais contemplativo, focado muito mais nas emoções e nas relações do que em grandes reviravoltas. Ao mesmo tempo, temos o mistério envolvendo a morte de Colette, que prende o leitor até o final. São vários segredos familiares, que acabam explicando muito do passado e suas consequências na vida dos personagens atuais.
É um livro principalmente sobre a força do amor, mas que também fala sobre memória, luto, maternidade, solidão e os traumas que passamos durante a vida e, quantas vezes, quem está mais próximo nunca ficou sabendo. [ALERTA DE SPOILERS] Três anos atrás quem tinha falecido era Blanche, as duas sempre foram extremamente parecidas. Embora isso não fique explícito no livro, a minha teoria é que o pai de Blanche tenha abusado da mãe de Colette em suas passagens pela cidade e ela tenha engravidado (isso explicaria muita coisa, como a semelhança das duas, o ódio inexplicável da mãe por Colette, já que ela não era assim com os outros dois filhos, e até alguns comentários da mãe, que parece não ter tido escolha ao se casar). Blanche viveu a vida toda como refém do pai, entregando para ele todos os seus salários, sem ter nenhum dinheiro ou documento em mãos. E para que o pai não continue a pertubá-las, Colette enterra Blanche em seu lugar e se esconde. Três anos depois, Colette morre de causas naturais. E o grande segredo que queriam esconder era que Agnés era filha de Blanche com Jean, depois de passarem apenas uma noite juntos. Ela esconde a gravidez do pai e entrega o bebe para Jean e Hannah criarem. [FIM DOS SPOILERS]
O final tem um ponto um pouco mirabolante, eu não entendi o porquê de Blanche não fugir de vez, já que conseguiu fugir... Por outro lado, ela não era uma mulher normal, foi alguém que praticamente viveu em cativeiro a vida toda. E entendo o porquê dela fazer tudo aquilo por amor e pensando apenas na segurança de outra pessoa.
Enfim, eu amei a leitura. Chorei, sorri, terminei encantada e completamente apaixonada pela narrativa da autora. Indico para leitores mais maduros no gênero e que amem um bom drama familiar, leiam!
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Avaliação (1 a 5):
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