Garota, esquecida - Karin Slaughter
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>> segunda-feira, 19 de outubro de 2026
SLAUGHTER, Karin. Garota, esquecida. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2022. 400p. (Andrea Oliver, v.2). Título original: Girl, Forgotten.
"No mês anterior, a mãe acusara Andrea de enfrentar todo desafio na vida como se fosse um penhasco do qual ela precisava se jogar, completamente fora de controle. Deixando que a gravidade assumisse as rédeas.
Naquele momento, a vida era mais como uma plataforma de salto ornamental.
Andre tinha, finalmente, aprendido a mergulhar.
Ela já sabia como cair." p. 396
Sou fã dos livros da Karin Slaughter, e a série Andrea Oliver mistura drama e thriller de forma muito interessante. Depois de Ninguém pode saber, confiram o que achei do segundo volume com Garota, esquecida!
Contém spoilers sobre o livro anterior!
Andrea Oliver, acaba de se formar como delegada dos U. S. Marshall e vai assumir sua nova posição na cidade de Longbill Beach, Delaware. Esta também é a cidade Natal do seu "pai", Nick Harp, quando ele ainda usava seu nome de batismo, Clayton Morrow, antes de se tornar um assassino perigoso que cumpria uma longa pena.
Ela tinha outros planos e iria para Oregon, mas acabou sendo enviada para lá por influência do irmão desconhecido de sua mãe, seu tio Jasper Queller, um senador dos EUA. Ele conta que Nick/Clayton pode ser solto na próxima audiência de condicional, mas acreditam que ele matou uma moça nessa cidade há mais de 20 anos atrás e quer que Andrea descubra a verdade. Como assassinato não prescreve, ele continuara preso. E sua missão tem tudo haver com isso. Ela aceita a missão, sem muita escolha, mas prefere não contar nada para sua mãe, Laura Oliver, que é muito controladora e não concorda com sua nova escolha de carreira.
Longbill Beach, EUA, 1982
A jovem Emily Vaughn está prestes a completar 18 anos, e sonhava com a formatura, a mudança para a faculdade; além de deixar para trás sua cidade Natal e seus pais, um pai que resolvia tudo agredindo ela e a mãe, e sua mãe, que vivia focada no trabalho e nos seus planos de se tornar uma juíza federal. Emily é bonita, inteligente e estudiosa. Entretanto, uma noite regada a bebidas e drogas com os melhores amigos, muda tudo. Emily, que era virgem, descobre que está grávida e não sabe como aconteceu e nem quem é o pai. Afinal, um de seus amigos faria isso? Abusariam dela dessa maneira? Desesperada, ela descobre que perdeu tudo, os amigos, a faculdade, seu futuro.
O quinteto era formado por Clay, Nardo, Blake e Ricky, a única outra menina, irmã gêmea de Blake. Ela logo descobre que seus "amigos" eram todos pessoas horríveis e começa a investigar para tentar descobrir o que aconteceu naquela noite. Contra a opinião de todos e proibida pelos pais, ela sai escondida para ir ao baile de formatura. Naquela noite Emily sofrerá um ataque brutal que terminará com sua morte. O caso jamais será solucionado.
Longbill Beach, EUA, presente
Quarenta anos depois, Andrea Oliver chega à cidade como agente do Serviço de Marshals dos Estados Unidos. Em sua primeira missão, ela é designada para proteger a juíza Esther Rose Vaughn, que vem recebendo ameaças de morte. Esther é justamente a mãe de Emily, e Andrea tem ideia de como fazer para investigar um assassinato que permaneceu sem solução durante quatro décadas. Ela tem apenas o arquivo do caso e uma memória perfeita.
Ao lado de Leonard “Catfish” Bible, seu parceiro na missão, Andrea começa a investigar as pessoas que cercavam Emily na época do crime. Entre elas estão seus antigos amigos e um antigo professor, Dean Wexler. Quanto mais ela escava o passado, porém, mais percebe que todos fizeram uma espécie de pacto de silêncio em torno da morte da jovem.
Emily não foi simplesmente esquecida; sua história foi deliberadamente apagada por pessoas que tinham motivos para esconder o que realmente aconteceu. Entre passado e presente, a investigação revela uma sucessão de segredos, abusos, relações de poder e silêncios que atravessaram gerações.
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Eu adorei mais um livro da Karin, como essa autora arrasa nos enredos e construção dos personagens! A história alterna entre presente e passado, dois cenários que por vezes se misturaram, já que a maioria dos personagens antigos continuavam morando na cidade nos dias atuais.
A estrutura em duas linhas temporais funciona muito bem. Os capítulos ambientados em 1982 permitem que o leitor acompanhe Emily e conheça gradualmente as circunstâncias que cercaram sua morte, enquanto a narrativa contemporânea acompanha Andrea na tentativa de reconstruir aquilo que foi escondido.
Eu me apeguei muito a Emily, mesmo sabendo como terminaria, e meu coração se partiu por ela. Naquela época, tanto preconceito, a mulher como sempre sendo julgada e condenada, a vítima sempre a culpada. Ninguém preocupado em denunciar que uma menor de idade foi drogada e estuprada, ela logo foi vista como uma pária por todos, a moça permissiva e drogada que engravidou. Abandonada pelos amigos, pelos pais, sozinha e sem saber o que fazer. Tudo culmina em sua morte e meu coração se partiu por ela.
No presente temos uma Andrea mais madura, um pouco menos insegura e dedicando-se ao máximo à sua nova profissão. Ela continua meio sem saber como agir em diversas situações, mas quer com todas as forças descobrir quem matou Emily, e dedica tudo para completar sua missão. Eu gosto muito também de Mike, agente encarregado da sua mãe no serviço de proteção de testemunhas, com quem ela acaba se envolvendo e depois terminando tudo. Ele chega à cidade pronto para protegê-la, mesmo que ela não saiba disso.
Diferentemente de uma investigadora completamente experiente e segura de si, como estamos acostumado na maioria dos livros de investigação; Andrea ainda está aprendendo a exercer sua nova profissão.Isso faz com que Andrea seja uma protagonista mais vulnerável e emocionalmente complexa, ao mesmo tempo em que demonstra inteligência, determinação e coragem. Ela luta para deixar o passado de lado, ao mesmo tempo que teme Nick/Clayton e tudo o que ele representa em sua vida.
Outro aspecto interessante é a forma como Karin Slaughter trabalha a violência contra as mulheres e a cultura de proteção aos homens que ocupam posições de poder. A autora não trata esses elementos apenas como componentes de um mistério policial, mas como parte da própria estrutura da história. O livro mostra como uma comunidade inteira pode participar de um crime não necessariamente cometendo o assassinato, mas escolhendo não enxergar, não perguntar e não acreditar.
Os personagens secundários também contribuem para criar uma atmosfera de desconfiança. Esther Vaughn, mãe de Emily e juíza respeitada, carrega uma relação complicada com o passado da filha. Franklin Vaughn, pai de Emily, hoje incapacitado devido a um AVC, representa uma figura de autoridade dentro da família. Já Judith Vaughn, filha de Emily, é uma das pessoas, que bem similar a Andrea, vive com as consequências de uma história que começou antes mesmo de seu nascimento.
Gostei muito de todos os desdobramentos e embora tenha acertado algumas hipóteses, o livro também me surpreendeu no final. Fiquei muito revoltada de toda aquela turma odiosa do passado continuar vivendo a vidinha patética deles por mais 40 anos, sem que Emily tivesse justiça. A parte do presente é um pouco mais enrolada, mas gostei do amadurecimento de Andrea. [ALERTA DE SPOILERS] Eu não achei que Clay/Nick tivesse matado Emily, ele não parecia se importar o suficiente com ela para isso rs, e acertei neste ponto. Eu achava que Nardo ou o escroto do ex professor tivessem estuprado ela, pode até ser que aconteceu dos dois fazerem algo, mas o bebê era do Nardo. E achei que Nardo fosse o assassino, mas nisso eu errei, tinha sido Ricky, pateticamente apaixonada por Nardo desde sempre, e achava que Emily queria algo com ele. E por isso a mata em uma acesso de raiva. No presente Ricky administrava a lanchonete que era do avô quando eram jovens, Blake tinha morrido pouco depois de Emily em um acidente. Nardo trabalhava para Dean em uma fazenda bizarra que funcionava como um culto que abusava de mulheres. Stilton, amigo de Emily na infância, era o delegado inútil da cidade, e no final ele atira e mata Nardo para, finalmente, vingar a morte de Emily. Terminou fácil para Nardo, queria ele sofrendo bem mais. Andrea descobre tudo e termina o livro se mudando para a nova missão e voltando a namorar Mike. [FIM DOS SPOILERS]
O livro para mim superou o primeiro, um thriller muito bem construído, especialmente para quem gosta de investigações de casos antigos, cidades pequenas cheias de segredos e histórias em que o crime é apenas a superfície de problemas muito maiores. A autora tem um pé no drama e adoro como o suspense vira algo secundário na trama. O terceiro livro ainda não foi lançado nos EUA, mas promete ser ainda melhor, com Andrea amadurecendo mais na profissão.
Eu adorei e indico demais! Uma história repleta de tensão, com um lado triste e muito sombrio e com uma mensagem bastante paradoxal, na qual justiça e verdade nem sempre significam a mesma coisa.
Adicione ao seu Skoob!
Série Andrea Oliver:
- Ninguém pode saber (Pieces of Her)
- Garota, esquecida (Girl, Forgotten)
Avaliação (1 a 5):
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