Três - Valérie Perrin
>> segunda-feira, 5 de outubro de 2026
PERRIN, Valérie. Três. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2023. 528p. Título original: Trois.
"Até o dia em que conheceu Nina e Étienne, Adrien se via como algo que não saía no papel. Um cartucho de tinta vazio. Sempre teve a sensação de ter nascido sem cor, todo transparente. Antes de Nina e Étienne, podiam apertar todas as teclas que o papel continuava em branco. Nina e Étienne lhe devolveram seus cinco sentidos. Além do fôlego. E certamente a esperança. Por isso ele era tão apegado aos dois." p. 79
Valérie Perrin já entrou na minha seleta lista de autores favoritos! A francesa tem uma escrita impecável, personagens inesquecíveis e tramas com um toque de suspense, muito drama, mas com uma sensibilidade muito bonita. Confiram o que achei de Três!
Em 1986, Nina Beau, Adrien Bobin e Étienne Beaulieu se conhecem ainda no ensino fundamental, quando estão com apenas 10 anos, e rapidamente se tornam amigos inseparáveis. Apesar de terem personalidades muito diferentes, os três encontram um no outro uma proximidade que nunca tiveram e vão crescendo juntos quase como se fossem todos da mesma família.
Nina é a mais sensível e carrega uma infância marcada pelo abandono da mãe, sendo criada pelo avô, Pierre Beau, um homem simples e viúvo que tenta fazer o melhor para a única neta. Uma menina cheia de energia que transmite uma alegria extrema em seus olhos castanhos, ou uma tristeza avassaladora. Adrien é o mais reservado, estudioso e ingênuo, vive com a mãe, Josephine Simoni e tem uma relação distante com o pai, Sylvain Bobin; um homem casado que aparece esporadicamente para visitas frias ao filho. Já Étienne é o rebelde e o mais carismático dos três, a criança linda, boa nos esportes, mas que odeia estudar. Ele veio de uma família abastada, tem dois irmãos, Louise de apenas 9 anos, uma criança tímida e que ama ler; e Paul-Émile, 19 anos, que por ser mais velho parece um estranho quando vem visitar. Sua mãe, Marie-Laure se apega com o passar dos anos aos melhores amigos do filho, enquanto seu pai, Marc, sempre olha parao filho como se ele fosse uma grande decpção. Justamente por serem tão diferentes, eles parecem se completar.
Mas a amizade que parece indestrutível começa a sofrer as primeiras rachaduras à medida que eles crescem. A adolescência traz amores, descobertas, segredos, escolhas e acontecimentos capazes de transformar completamente a relação entre os três. Mas eles fazem uma promessa: deixar a pequena cidade onde vivem, mudar-se para Paris, viver de música e nunca se separar. O que parecia uma promessa para a vida inteira começa a se tornar uma lembrança de uma época que talvez não possa ser recuperada.
Em 2017, um antigo carro foi encontrado no fundo de um lago na cidade. A jornalista Virginie, que mudou de volta para a cidade e conhece muito bem os três, desde a infância, é escolhida pelo jornal para cobrir a notícia. A descoberta do carro revela um corpo, agora apenas um esqueleto, dentro dele. E isso faz com que todos lembrem de uma adolescente, que desapareceu da cidade em uma noite, quando eles tinham 18 anos.
A presença de Virginie acrescenta uma camada de mistério à história. Desde o início, ela deixa claro que conhece Nina, Adrien e Étienne desde a infância, mas quem seria ela? Alguém que não fala com Nina há muitos anos, mas parece obcecada por ela. Alguém que teme reencontrar Étienne, mas ao mesmo tempo parece já tê-lo amado. E o que aconteceu com esses três? O que os afastou e deixou a vida deles no presente tão complicada?
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Essa é com certeza uma história de amizade, e uma das mais lindas e tristes que já conheci. A narrativa da autora é tão perfeita que você ama três crianças de 10 anos narrando uma história, e acompanha o crescimento dos três até a vida adulta. Você ama cada um deles, sofre por eles e tenta desesperadamente entender o que aconteceu para afastá-los. Eles ficaram 14 anos sem se falar! E meu coração se partiu por cada um deles. No final eu adorei a leitura e devorei cada página, cheguei até a sonhar com eles dormindo hehe.
Eu amei os três protagonistas, cada um deles tão diferente e ao mesmo tempo se completando. Nina a criança abandonada pela mãe, que teve como única família o avô, o carteiro dedicado que fez tudo pela neta, mas que como toda jovem, Nina demora a perceber tudo o que tem no avô, focando em tudo o que "não tem" em sua família. Uma menina que ama os animais a ponto de resgatar vários até que o avô a proibe de levar cães e gatos abandonados para casa. Que cresce muito curiosa para encontrar sua sexualidade e o amor que busca por tanto tempo. Adam que tem apenas a mãe e um pai ausente, Josephine uma mãe tão perfeita e que se esforça muito para criar o filho bem. Adam que nunca conta aos amigos seus sonhos e desejos, que a vida toda foi um ouvinte e sabe tudo sobre eles. Étienne que quer tanto se provar aos olhos do pai, que tem inúmeras namoradas sem nunca ter realmente amado nenhuma delas. Que encontra nos amigos um lar seguro, mas que tem uma solidão dentro de si que nem consegue explicar.
Valérie Perrin parte de uma amizade infantil aparentemente indestrutível para mostrar como o tempo pode transformar pessoas, sonhos e relações. A grande força do romance está justamente em acompanhar Nina, Adrien e Étienne em diferentes fases da vida e perceber que crescer não significa apenas mudar: significa também deixar algumas versões de nós mesmos para trás. E como seu sofri com esses desencontros, esses segredos e o suspense que ela mantém até o final! Eu achei que sabia algo, depois pensei que estava errada e logo em seguida tive certeza de novo. Matei a charada, mas roí muitas unhas até lá hehehe.
Virginie é outro personagem interessante e uma incógnita por boa parte do livro. Sua presença inicialmente parece estar ligada apenas à investigação jornalística sobre o carro encontrado no lago, mas aos poucos percebemos que ela tem uma ligação muito mais profunda com os três. Ela esteve envolvida romanticamente com Nina? Com Etiénne? E onde está Adrien que demora a aparecer na história? E qual o relacionamento de Adrien e Louise? A maneira como sua identidade e sua história são reveladas gradualmente é uma das estratégias que mantém a curiosidade do leitor. A narrativa não entrega todas as respostas de uma vez; ela vai montando o quebra-cabeça aos poucos.
O mistério, entretanto, não deve ser visto como o principal atrativo do livro. Três é muito mais um romance do que um thriller. A amizade é o cerne da história, e o verdadeiro interesse está em compreender como aquelas três crianças inseparáveis chegaram ao ponto em que não se falam mais tantos anos depois. É um livro sobre o tempo e suas marcas. Sobre como podemos amar profundamente alguém em determinada fase da vida e, anos depois, quase não reconhecer quem a pessoa se tornou. E também sobre como algumas pessoas permanecem dentro de nós mesmo quando já não fazem parte da nossa vida.
O desenvolvimento é mais lento, mas essa é uma característica comum nos livros da autora. Todos eles alternam passado e presente, vários personagens e tem algo a ser descoberto em algum ponto. Eu amo o estilo dela e sua narrativa, mas não é um livro simples, é uma história com várias camadas para o leitor "degustar".
[ALERTA DE SPOILERS] Desde que Nina conheceu o tal Emmanuel no serviço, um homem mais velho e meio obcecado por ela, eu já imaginei que foi aí que eles se afastaram. E foi isso mesmo. Nina perde o avô aos 18 anos em um acidente trágico, logo antes dos três se mudarem para Paris. Desconsolada, ela se joga nesse relacionamento e se casa com ele. No começo eles tentam entender e participar de tudo, mesmo percebendo a roubada em que ela se meteu. Nina a pouco vai se apagando, se torna a "boneca de porcelana" de um homem rico, sem propósitos, sem trabalho, sem objetivo e totalmente dominada em um relacionamento psicologicamente abusivo. Ela começa a beber para abafar suas emoções e cada vez mais se afasta dos amigos. Étienne se torna policial como sonhava, muda para Lyon, se casa e tem um filho, Valentim. No presente é seu filho adolescente que vai atrás de Nina (que voltou a morar na cidade e administra o abrigo local de animais abandonados) e conta que o pai tem uma doença e pode morrer. Nina vai à casa da mãe de Étienne e eles se reencontram 14 anos depois. E Adam, que é apenas citado no começo como autor famoso, é, claro, Virginie. Eu achei isso logo no começo, mas o fato dela mesma citar Adrien como outra pessoa me confundiu. Tudo isso fazia parte da dualidade de Adam/Virginie, que nasceu com a alma de uma mulher, mas nunca teve coragem de se assumir. E mesmo após "virar" Virginie ele ainda lutava com a sua transexualidade e nunca aceitou passar pela cirurgia. Louise se tornou médica, e tudo que sonhava era que ele se aceitasse e que eles ficassem juntos. Étienne nunca aceitou/entendeu Adrien e via Virginie como uma "aberração". No final eles viajam com Étienne que se recusa a tratar um câncer grave, para que ele possa partir como quer. Adam aceita passar pela cirurgia de mudança de sexo, Nina encontra um novo amor e termina grávida. Étienne fica com o final meio em aberto, porque ele viaja escondido para uma clínica para fazer a cirurgia e se tratar, mas como não falam mais nele, dá a entender que ele realmente morreu. [FIM DOS SPOILERS]
Eu amei apesar de algo meio aberto no final! A autora até hoje nunca escreveu uma continuação ou nada relacionado, mas fica aqui o meu sonho por um livro sobre Valentim adulto! Leiam!!
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Avaliação (1 a 5): 4.5






