Eu sobrevivi ao Holocausto - Nanette Blitz Konig
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>> segunda-feira, 12 de outubro de 2026
KONIG, Nanette Blitz. Eu sobrevivi ao Holocausto. São Paulo: Editora Universo dos Livros, 2015. 192p. Título original: Holocaust Memoirs of a Bergen-Belsen Survivor : Classmate of Anne Frank.
"Nunca mais acontecer... O tempo escorre entre nossos dedos. o Holocausto se distancia cada vez mais, mas, ainda assim, temos que sempre faze-lo presente. É triste, mas o mundo ainda sofre tanto com guerras. Vou morrer lutando para que seres humanos não sofram nem percam sua dignidade como aconteceu com os judeus naquela época, como aconteceu comigo. A necessidade de contar essa história nasce da necessidade de conscientizar o mundo." p.8
Vejo algumas leituras como necessárias, importantes. Todos sabemos o que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial, sabemos que mais de 6 milhões de judeus e outros grupos foram assassinados. É necessário nunca esquecer, nunca repetir, o mundo parece sempre retroceder, o ser humano parece nunca evoluir. Até quando? Esse é um dos livros bem antigos na estante, mas que finalmente consegui ler. Confiram o que achei da autobiografia Eu sobrevivi ao Holocausto da Nanette Blitz Konig.
Nascida em Amsterdã, em 1929, Nanette era adolescente quando a Segunda Guerra Mundial alterou completamente a vida de sua família. Antes da perseguição, vivia uma infância relativamente tranquila ao lado de seus pais e de seu irmão Bernard. Com a ocupação nazista da Holanda, porém, as restrições impostas aos judeus foram se tornando cada vez mais severas, até que a família foi deportada.
Nanette conheceu Anne Frank na escola, depois que os judeus foram obrigados a sair de suas escolas e estudar em locais apenas para eles. As duas foram colegas no Liceu Judaico de Amsterdã e, posteriormente, voltaram a se encontrar no campo de concentração de Bergen-Belsen. No reencontro já no final da guerra, pouco antes dos soldados britânicos conseguirem liberar o campo, Anne e sua irmã, Margot Frank, estavam extremamente debilitadas, todos enfrentavam a fome, o frio, as doenças e as condições desumanas do campo. Quando os nazistas já sabiam da derrota e aguardavam para deixar o local, eles simplesmente pararam de fornecer a pouca comida que davam aos prisioneiros, de retirar os milhares de corpos espalhados pelo local e cortaram até o fornecimento de água.
Em um breve encontro já no campo, Anne contou a Nanette sobre o período em que sua família permaneceu escondida e sobre seu desejo de publicar seu diário depois da guerra.
Nanette relata não apenas os horrores vividos em Bergen-Belsen, mas também o que aconteceu antes e depois. A narrativa acompanha a perda progressiva da liberdade, a separação de familiares, a fome, a doença, o medo constante da morte e, finalmente, a libertação. Sobreviver, entretanto, não significou deixar o passado para trás. As lembranças permaneceram como marcas profundas e acompanharam Nanette durante toda a vida.
O livro também mostra o longo processo de reconstrução depois da guerra: a tentativa de retomar uma existência normal, as consequências físicas e emocionais da experiência e a decisão de transformar a própria memória em instrumento de conscientização. Além de tudo, a falta de apoio do governo da Holanda aos judeus, que tiveram todos os seus bens roubados e perderam tudo, sem nenhuma reparação posterior. Assim, a história de Nanette deixa de ser apenas uma lembrança pessoal e passa a representar também a memória de milhões de pessoas perseguidas e assassinadas durante o Holocausto.
"Um dia me disseram que eu era inferior por ser judia, mas eu nunca acreditei nisso. Assim como fizeram com os judeus, os nazistas impuseram suas superioridade sobre diferentes grupos, como ciganos, homossexuais, deficientes físicos e outras minorias que eles acreditavam não se comparar à sua pureza racial. Nunca acreditei na superioridade de nenhum ser humano diante do outro, pois, tirando os aspectos culturais da vida, temos todos a mesma essência. E é por isso que não quero que ninguém se considere inferior, para que nunca tenha que se submeter ao desejo de poder do outro, para que nunca perca sua liberdade." p.189
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Eu não posso dizer que amei a leitura como outros livros que li sobre o tema. Apesar de ser uma autobiografia a narrativa de Nanette é quase técnica e por muitos momentos parecia mais uma palestra de história do que um livro em primeira pessoa. Obviamente a história é trágica e muito triste por si só, mas faltou algo para a leitura me emocionar.
A ligação com Anne Frank é muito tênue e Anne é citada em poucas menções durante o livro. Então para quem está sempre procurando mais sobre Anne, que conquistou os corações de milhares de pessoas no mundo e continua comovendo leitores de todas as idades ao longo dos anos, não é este o propósito deste livro.
O mais interessante da leitura para mim foi a narrativa de Nanette após a libertação e por tudo o que ela passou ainda no final da adolescência e tão sozinha. Depois ela foi acolhida por seus tios na Inglaterra, mas antes disso passou três anos sendo paciente de uma espécie de sanatória na Holanda, onde recebeu os cuidados médicos após sobreviver ao tifo e à tuberculose. A sobrevivência em si naquelas condições do campo foi algo milagroso. E o governo Holandês que lavou as mãos de tudo que foi roubado de tantas pessoas, a única coisa que Nanette recebia era uma pensão irrisória pelos longos anos que seu pai trabalhou em um banco.
Também chama atenção a transformação da memória em responsabilidade. Já mais velha, Nanette resolveu começar a contar sua história. A falar para estudantes e outras pessoas sobre aquilo que viveu, insistindo na importância de combater o preconceito, o antissemitismo e a intolerância. Nesse sentido, seu livro não é apenas um relato sobre o passado, mas também um alerta para o presente.
É uma leitura recomendada para quem se interessa por relatos de sobreviventes da Segunda Guerra Mundial e por histórias reais que ajudem a compreender as consequências da intolerância. O livro deixa a sensação de que conhecer essas histórias não é apenas uma escolha literária, mas também uma forma de preservar uma memória que nunca será esquecida.
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