Um brinde de cianureto - Agatha Christie
>> sexta-feira, 9 de janeiro de 2026
CHRISTIE, Agatha. Um brinde de cianureto. Rio de Janeiro: Editora HarperCollins Brasil, 2021. 256p. Título original: Sparkling Cyanide.
"Ela era capaz de assassinato? A maioria das pessoas era, se você pensar bem. Capazes não de assassinato em geral, mas mirando em uma vítima especial. Era isso que deixava tudo tão difícil eliminar qualquer um." p. 177
Chegamos ao 49º livro do Projeto Agatha Christie e as resenhas dos livros anteriores, você encontra AQUI. Este mês temos de volta um personagem recorrente que eu adoro, o Coronel Race. Confiram o que achei de Um brinde de cianureto!
Publicado em 1945, a história tem início um ano após a morte de Rosemary Barton, uma jovem socialite londrina, descrita como deslumbrante, impulsiva e pouco inteligente. Rosemary tinha apenas 20 e poucos anos e morreu no meio de um jantar no elegante restaurante Luxembourg, em Londres.
Na época, a morte foi oficialmente considerada suicídio, atribuída por um médico à depressão pós-gripe. Algum tempo depois, seu marido, George Barton, recebe estranhas cartas anônimas, afirmando que sua esposa havia sido assassinada. Ele conta tudo para a irmã mais nova de Rosemary, Iris Marle, que fica assustada com toda a situação. Consumido por dúvidas, George decide recriar o mesmo jantar um ano depois, no mesmo restaurante, no aniversário de morte da esposa, convidando exatamente as mesmas pessoas que estavam presentes naquela noite fatídica.
A mesa reúne um grupo heterogêneo e tenso:
- Iris Marle, irmã mais nova de Rosemary, ainda abalada e vulnerável.
- Stephen Farraday, um influente membro do Parlamento.
- Sandra Farraday, sua esposa inteligente e controlada, que sabe que Stephen teve um caso com a falecida.
- Anthony Browne, um homem misterioso com um passado nebuloso e possíveis ligações criminais.
- Ruth Lessing, a eficiente secretária de George, discreta, leal e silenciosamente apaixonada por ele.
- Coronel Race, amigo e confidente de George, que não havia comparecido ao primeiro jantar, mas que era aguardado neste dia, conforme ele informou aos outros convidados.
O plano de George era provocar o assassino com a reencenação, esperando que a verdade emergisse. Porém, algo inesperado acontece.
A partir daí, o caso passa às mãos do Coronel Race, que começa a destrinchar segredos, traições, ciúmes, chantagens e relações ocultas que conectam todos à figura de Rosemary.
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Um Brinde de Cianureto é um thriller psicológico muito interessante, mais uma vez provando a versatilidade da Agatha Christie (e tem gente que jura que o estilo começou com Garota exemplar hehehe). Eu adorei a leitura e me surpreendi com o final, achava que tinha matado a charada e errei feio...
O aspecto mais interessante do livro não está no mistério, mas na forma como a autora reconstrói a noite do crime a partir das perspectivas de cada personagem. Aos poucos a autora nos mostra: o ciúme reprimido de Sandra Farraday; a angústia e a insegurança de Iris; a paixão secreta de Ruth pelo chefe; a obsessão de George pela esposa jovem e bonita que ele achava que era "muita areia para o seu caminhãozinho"; os interesses desconhecidos de Anthony Browne; e a enorme ambição de Stephen Farraday. Cada capítulo adiciona camadas, mostrando como Rosemary foi o centro de uma teia cada vez mais intrincada.
Neste volume, temos de volta o Coronel Race. Ele é mais um personagem secundário, demora a aparecer realmente, mas depois assume a função de investigador, mas a narrativa distribui o protagonismo entre todos os envolvidos. Como todo livro da autora, todos são suspeitos, todos possuíam algum motivo. Mas quem realmente matou Rosemary?
[ALERTA DE SPOILERS] Depois do assassinato de Rosemary, eu desconfiei de Iris, porque ela era a herdeira da forturna que foi deixada por uma parente, e não o viúvo, George. Mas a moça estava triste demais, era inocente demais. Acabei deixando o dinheiro de lado e desconfiando da secretária, Ruth. Mas no segundo jantar, para surpresa de todos, George é assassinado, o que não fez muito sentido. Afinal, qual seria o motivo? Apenas encobrir o primeiro crime?? Fiquei meio perdida, desconfiando dos Faraday juntos... mas no final, George morreu por engano, ao beber da taça de Iris, e isso foi o que me pegou. Ela era a vítima presumida, e quem queria matá-la era um primo distante, filho da tia que era acompanhante da moça, pois a tia herdaria então o tal dinheiro. [FIM DOS SPOILERS]
O desfecho é coerente e típico da Rainha do Crime; uma revelação apoiada mais na psicologia dos envolvidos do que em pistas materiais. No conjunto, Um Brinde de Cianureto é uma obra sofisticada, cheia de nuances emocionais e com um grupo de suspeitos igualmente interessantes e falhos. Não é apenas um “quem matou”, mas um estudo elegante sobre vaidade, amor não correspondido, ambição e autopreservação. Eu adorei a leitura e após tantos livros, fico feliz em como Agatha ainda consegue me surpreender. Leiam!
Adicione ao seu Skoob!
Série Coronel Race
- O Homem do Terno Marrom (The Man in the Brown Suit), 1924
- Cartas na Mesa (Cards on the Table), 1936
- Morte no Nilo (Death on the Nile), 1937
- Um Brinde de Cianureto (Sparkling Cyanide), 1945
Avaliação (1 a 5):






